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Guia de Função Intestinal Pós-Lesão Medular

Guia de Função Intestinal Pós-Lesão Medular

Aqui está um FAQ de 8 perguntas com respostas completas que abordam os principais temas e ideias das fontes fornecidas:

1. Quais são as principais alterações na função intestinal que as pessoas podem experienciar após uma lesão da medula espinhal (LME)?

Após uma LME, a maioria das pessoas experiencia mudanças significativas na função intestinal, conhecidas como disfunção intestinal neurogénica. Essas alterações resultam da interrupção dos sinais nervosos entre o cérebro e o intestino. Os problemas comuns incluem:

• Sensação reduzida: A capacidade de sentir quando o intestino está cheio ou de reconhecer outras sensações intestinais, como desconforto, pode ser perdida devido ao bloqueio dos sinais nervosos para o cérebro.

• Movimento lento das fezes: O peristaltismo (movimento ondulatório das paredes intestinais) diminui significativamente porque os sinais cerebrais que normalmente coordenam esse movimento são bloqueados. Isso leva a uma digestão mais lenta e pode resultar em fezes secas e duras, causando obstipação.

• Perda de controlo intestinal: A comunicação interrompida entre o cérebro e os músculos dos esfíncteres anais pode levar à perda de controlo sobre o relaxamento ou aperto desses esfíncteres. Isso pode resultar em dificuldade para esvaziar os intestinos (retenção de fezes) se os esfíncteres permanecerem apertados, ou em fugas e acidentes (incontinência) se relaxarem inesperadamente. A perda de controlo dos músculos do pavimento pélvico e abdominais também pode afetar o controlo intestinal.

2. Quais são os dois tipos principais de alterações intestinais após uma LME e como se distinguem?

Existem dois tipos principais de alterações intestinais, dependendo do nível da lesão da medula espinhal:

• Intestino espástico (ou intestino reflexo/neurónio motor superior): Ocorre geralmente quando a LME é em T12 ou acima. Neste caso, os reflexos intestinais naturais são preservados, mas perdem o controlo do cérebro. Isso leva a um aumento da tensão muscular nas paredes intestinais, aperto dos músculos do esfíncter anal e um reflexo de esvaziamento descontrolado quando há algo no reto. O intestino espástico manifesta-se tipicamente como obstipação e incapacidade de evacuar as fezes (retenção de fezes). A gestão geralmente envolve a ativação dos reflexos intestinais, como a estimulação digital ou o uso de supositórios, geralmente a cada dois dias.

• Intestino flácido (ou intestino não reflexo/neurónio motor inferior): Acontece geralmente quando a LME é abaixo de T12. No intestino flácido, há uma perda tanto do controlo cerebral quanto da atividade reflexa do intestino. Isso resulta na perda de tensão muscular nas paredes intestinais e nos músculos do esfíncter anal, tornando os músculos intestinais flácidos e soltos. O intestino flácido é comumente associado a fugas acidentais de fezes (incontinência) e obstipação. As fezes geralmente precisam ser removidas por evacuação manual (também chamada de desimpacção) uma a duas vezes por dia para esvaziar o intestino.

3. Que problemas intestinais podem ocorrer após uma LME, além da obstipação e incontinência?

Além da obstipação e incontinência fecal, a disfunção intestinal após uma LME pode levar a vários outros problemas de saúde:

• Diarreia: Embora o movimento intestinal seja geralmente lento após uma LME, a diarreia (fezes líquidas que se movem muito rapidamente) pode ocorrer devido a certos alimentos, doenças, outras condições intestinais (como impactação fecal) ou como efeito colateral de medicamentos.

• Impactação fecal: É o acúmulo de uma massa sólida de fezes no intestino ao longo do tempo, que fica bloqueada e não pode ser evacuada por métodos regulares. A impactação fecal ocorre após um longo período de obstipação e, paradoxalmente, pode causar fugas de fezes líquidas que contornam a massa impactada, confundindo-se com diarreia. É uma condição séria que pode mimetizar uma obstrução intestinal.

• Hemorroidas: Veias inchadas ou inflamadas no reto e ânus, que podem ser internas ou externas. Os sintomas incluem dor, sangue ou muco nas fezes e protuberâncias inchadas que saem do ânus.

• Outros problemas: A disfunção intestinal também pode contribuir para perda de apetite, náuseas, distensão abdominal (acúmulo de líquido ou gás), úlceras, fissuras retais (rachaduras na pele do reto) e prolapso retal (as paredes do reto deslizam para fora do lugar e podem projetar-se para fora do ânus).

4. Como é feito o diagnóstico das alterações intestinais após uma LME e quais ferramentas são usadas?

O diagnóstico das alterações intestinais após uma LME baseia-se principalmente numa história intestinal detalhada. Os profissionais de saúde questionarão sobre o histórico médico do paciente, sintomas e a gestão atual. Isso inclui perguntas sobre a rotina intestinal, como a frequência das evacuações, a duração da rotina e a consistência das fezes.

Um exame físico também é realizado, incluindo um exame neurológico e um exame retal. Isso pode envolver a inspeção e palpação do abdómen e do reto, bem como a avaliação do tónus muscular dos esfíncteres anais e o teste dos reflexos intestinais.

Além disso, testes adicionais podem ser solicitados para obter mais informações:

• Imagiologia médica: Raios-X, tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM) do abdómen podem ser usados para investigações mais aprofundadas.

• Amostras de fezes: Podem ser recolhidas para análise.

• Análises ao sangue: Podem ser feitas para rastrear infeções ou cancro.

• Colonoscopia: A inserção de uma pequena câmara no cólon para procurar cancro colorretal, pólipos e hemorroidas.

escala de Bristol é uma ferramenta útil usada para classificar a consistência das fezes em sete tipos, ajudando a monitorizar e comunicar rapidamente a qualidade das fezes, com o objetivo de manter os tipos 3 ou 4.

5. O que é uma rotina intestinal e qual é a sua importância após uma LME?

Uma rotina intestinal é um conjunto regular de técnicas de cuidado intestinal que se realiza diariamente ou a cada dois dias para esvaziar o intestino. É a principal abordagem para a maioria das pessoas gerirem a sua saúde intestinal após uma LME e é essencial para manter a saúde e o bem-estar.

A importância da rotina intestinal reside em:

• Prevenção de complicações: Sem cuidados adequados, a disfunção intestinal pode levar a obstipação grave, impactação fecal e outras complicações intestinais sérias. Pode também contribuir para outros problemas médicos, como deterioração da pele, úlceras de pressão e disreflexia autonómica.

• Melhoria da qualidade de vida: Problemas intestinais mal geridos podem interferir significativamente com as atividades diárias, como trabalho, vida social e intimidade sexual, devido a acidentes inesperados. Uma rotina bem gerida, mesmo que demorada, permite um esvaziamento regular e minimiza o risco de acidentes, o que pode ter um grande impacto na satisfação e qualidade de vida.

• Objetivos da rotina: O objetivo é geralmente completar a rotina em uma hora, de forma regular, para esvaziar as fezes do intestino e prevenir acidentes.

As rotinas intestinais são altamente individualizadas, muitas vezes exigindo tentativa e erro para encontrar os métodos mais adequados às necessidades, capacidades físicas, preferências e estilo de vida únicos de cada pessoa.

6. Quais são as principais técnicas manuais e o papel da alimentação na gestão intestinal?

As rotinas intestinais frequentemente envolvem uma combinação de técnicas manuais e ajustes dietéticos:

Técnicas de esvaziamento manual:

• Estimulação digital: Comumente usada para o intestino espástico (lesões em T12 e acima). Envolve a inserção de um dedo enluvado e lubrificado no ânus para realizar movimentos circulares ao longo das paredes do reto. Isso ativa um reflexo que causa contrações retais e relaxamento dos esfíncteres anais, permitindo o esvaziamento. É importante monitorizar sinais de disreflexia autonómica, especialmente em lesões T6 e acima.

• Evacuação manual das fezes (desimpacção digital): Usada para o intestino flácido (lesões abaixo de T12), onde os reflexos intestinais não estão presentes. Esta técnica envolve o uso de um dedo enluvado e lubrificado inserido no ânus para remover as fezes manualmente. Pode ser combinada com o uso de um supositório lubrificante.

• Massagem abdominal: Envolve massagear o abdómen no sentido horário para aumentar o movimento no cólon. A sua eficácia após uma LME é controversa, e deve-se ter cautela após cirurgias recentes ou com ostomias.

Alimentação e fluidos:

• Fibras: Cruciais para manter a consistência das fezes. As fibras solúveis (aveia, psílio) absorvem água e ajudam a melhorar a consistência das fezes, sejam muito moles ou muito duras, mas exigem aumento da ingestão de água. As fibras insolúveis (grãos integrais) ajudam a acelerar o trânsito intestinal. A quantidade ideal de fibra varia e deve ser ajustada gradualmente.

• Fluidoterapia: A água é vital para adicionar volume às fezes e facilitar o seu movimento. Recomenda-se beber pelo menos 2 litros de líquido saudável por dia, embora a quantidade ideal após LME ainda não seja clara.

• Alimentos e bebidas: Algumas pessoas descobrem que certos alimentos e bebidas afetam a sua função intestinal, causando fezes moles ou obstipação. É necessário experimentar para encontrar a melhor dieta.

• Reflexo gastrocólico: Algumas pessoas comem ou bebem líquidos quentes pelo menos 30 minutos antes da sua rotina intestinal para tentar aproveitar este reflexo, que é mais forte pela manhã, embora as evidências científicas sobre a sua eficácia após uma LME sejam contraditórias.

7. Que tipos de medicamentos e supositórios podem ser utilizados no manejo intestinal após uma LME?

Medicamentos e supositórios são frequentemente adicionados à rotina intestinal se as técnicas manuais e as alterações dietéticas não forem suficientes:

• Laxantes emolientes: Aumentam a humidade das fezes para facilitar a sua passagem. Exemplos comuns incluem polietilenoglicol (PEG) e docusato de sódio. Geralmente são tomados uma ou duas vezes ao dia, ou conforme necessário.

• Supositórios e microlax: Um supositório é uma substância sólida inserida no reto para ser absorvida e atuar diretamente nas paredes intestinais. Um microlax é uma forma líquida de medicamento administrada no reto antes de um esvaziamento planeado. São usados para uma ação rápida e direta.

• Laxantes estimulantes (incluindo supositórios estimulantes): Aumentam os movimentos das paredes intestinais para ajudar a mover as fezes. Bisacodil e sennosídeos são laxantes estimulantes orais comuns, tomados 8 a 12 horas antes da rotina intestinal planeada. Supositórios estimulantes (como Dulcolax) ativam o reflexo intestinal e são inseridos 15 a 30 minutos antes do esvaziamento.

• Supositórios lubrificantes: Contêm substâncias não medicamentosas (como glicerina) que retêm água no intestino, tornando as fezes mais moles e fáceis de passar.

• Agentes procinéticos: Aumentam a atividade muscular do trato digestivo para mover as fezes, acelerando o movimento tanto no trato digestivo superior quanto no intestino. São considerados um último recurso e não são usados rotineiramente. Fampridina, neostigmina, metoclopramida e prucaloprida são exemplos que mostraram evidências moderadas de ajudar na obstipação após LME.

8. Quais são os tratamentos mais invasivos e emergentes para a disfunção intestinal após uma LME?

Embora a maioria das pessoas consiga gerir a função intestinal com rotinas conservadoras, existem tratamentos mais invasivos e emergentes para casos em que esses métodos não são suficientes:

• Cirurgias (colostomia e ileostomia): Estas são opções cirúrgicas se as técnicas conservadoras falharem ou para acelerar os cuidados intestinais. Envolvem a criação de uma abertura (estoma) no intestino para o exterior do abdómen, onde as fezes são recolhidas numa bolsa.

    ◦ Colostomia: O estoma é criado no cólon (intestino grosso).

    ◦ Ileostomia: O estoma é criado no íleo (última parte do intestino delgado). Apesar de invasivas, estas cirurgias podem simplificar as rotinas intestinais, reduzir o tempo gasto nos cuidados, diminuir a necessidade de laxantes e hospitalizações, e aumentar a independência e qualidade de vida.

• Irrigação intestinal: Envolve a introdução de água ou outros líquidos no intestino para estimular os músculos e evacuar as fezes, ajudando a amolecer as fezes e tratar a obstipação.

    ◦ Irrigação transanal: Um cateter é inserido no reto através do ânus, e a água é bombeada para o intestino.

    ◦ Irrigação anterógrada: O fluido é introduzido através de um estoma criado cirurgicamente (por exemplo, cecostomia ou procedimento de Malone Antegrade Continence Enema – MACE, onde o apêndice é transformado num estoma).

• Tratamentos de estimulação elétrica e magnética (não usados rotineiramente):

    ◦ Estimulação magnética funcional: Um ímã é colocado na medula espinhal para estimular as células nervosas. Evidências fracas sugerem que pode melhorar o tempo de trânsito intestinal.

    ◦ Estimulação muscular abdominal: Eletrodos são colocados nos músculos abdominais para estimular a atividade muscular, o que pode ajudar no esvaziamento intestinal em pessoas sem controlo abdominal.

    ◦ Estimulação da raiz sacral anterior: Um procedimento invasivo onde eletrodos e um dispositivo de controlo são implantados cirurgicamente nos nervos sacrais. Este dispositivo pode estimular os nervos para ajudar no esvaziamento intestinal, com evidências moderadas de eficácia na obstipação após LME.

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