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Lesão medular e o risco de osteoporose

Lesão medular e o risco de osteoporose

Imagine perder o controle dos movimentos e, anos depois, começar a perder também a força dos ossos. Parece injusto, mas é exatamente o que acontece com muitas pessoas após uma lesão na medula espinhal. A osteoporose silenciosa e sorrateira se instala em um corpo que já enfrenta o desafio diário da neuroparalisia. E o pior: ela não dói — até que dói. E quando dói, normalmente já veio acompanhada da fratura.

Você pode nunca ter feito um exame de densitometria óssea ou ouvido alguém da equipe falar sobre osteoporose. Mas a relação entre lesão medular e perda de densidade óssea é mais próxima do que se imagina. Vamos destrinchar esse risco, entender suas causas reais e, mais importante, apontar o que pode ser feito na prática para preservar a saúde dos ossos mesmo com a mobilidade reduzida pela lesão.

Sim, é possível ter mais controle sobre o que parece inevitável. Mas não tem mágica: tem fisiologia, prática clínica e compromisso diário.

O que acontece com os ossos após uma lesão medular?

Após uma lesão medular — especialmente completa — o corpo entra em reconfiguração total. Uma das mudanças mais profundas (e muitas vezes ignoradas) é no sistema musculoesquelético. Isso porque os ossos, para manterem sua densidade, precisam de estímulos mecânicos: peso, tração, impacto controlado. E adivinha o que desaparece quando a pessoa para de andar ou mover os membros inferiores?

  • A descarga de peso pelos membros inferiores;
  • A contração ativa dos músculos que tracionam o osso;
  • O estímulo proprioceptivo contínuo nos ossos longos das pernas.

Sem isso, o osso começa a se desmineralizar, num processo chamado de perda da densidade mineral óssea (DMO). Após lesão, esse processo inicia rápido — estudos apontam que as primeiras perdas significativas ocorrem entre 3 e 6 meses pós-lesão.

O osso, nesse contexto, entende: “se esse corpo não vai mais me usar, não tenho por que me manter forte”. O resultado? Osteoporose de imobilidade.

Quais os locais mais afetados pela osteoporose pós-lesão?

A osteoporose em pessoas com lesão medular tende a ser regionalmente severa, concentrada especialmente em:

  • Fêmur distal;
  • Tíbia proximal;
  • Áreas subjacentes às articulações do joelho e tornozelo.

Essas regiões, por serem justamente aquelas que mais aguentariam a carga do corpo em pé, são as que mais sofrem com a ausência prolongada de descarga.

O risco real de fratura: o perigo invisível

A fratura em um corpo com lesão medular é um jogo totalmente diferente. Não apenas o osso está fragilizado, como também a sensibilidade diminuída impede que a dor alerte o que aconteceu.

Muitas pessoas só descobrem que fraturaram o fêmur ao tentar transferir da cadeira para o leito e notar um “clique” esquisito. Em tetraplégicos, onde a percepção abaixo do nível da lesão é ainda mais limitada, o problema se torna ainda mais grave.

Segundo revisões clínicas reunidas na nossa seção Evidências, fraturas podem ocorrer com traumas mínimos — como cruzar as pernas errado ou levar uma leve batida contra uma porta.

Prevenção: como fortalecer os ossos mesmo após uma lesão medular?

1. Carga vertical controlada

Estar em pé importa. E se não dá para andar, tudo bem: existe a opção de ficar de pé com segurança usando ortostatismo assistido.

Pode ser com:

  • Prancha ortostática;
  • Estação em pé (standing frame);
  • Órteses ou exoesqueletos em fase avançada.

Esse estímulo já é suficiente para sinalizar ao organismo que manter o osso forte ainda é necessário.

2. Estimulação elétrica funcional (FES)

FES é mais do que fisioterapia tecnológica — é fisiologia aplicada. Ela ativa os músculos paralisados por meio de impulsos elétricos, gerando contrações que tracionam o osso.

E o que isso significa? Mesmo sem comando motor voluntário, o osso “sente” que precisa manter sua integridade.

Se você parou de movimentar, mas ainda consegue gerar estímulo, o osso obedece. Ele ainda responde. Só não pode ser esquecido.

3. Suplementação e dieta

Nutrientes como cálcio, vitamina D e proteínas são fundamentais. Mas isso não é sobre tomar comprimidos aleatoriamente. É sobre investigar com exames de sangue, medir a absorção, e ajustar a dieta e suplementação com orientação de nutricionista.

4. Atividade física adaptada

Sim, é possível (e necessário) treinar mesmo com limitações. A movimentação ativa ou passiva, quando orientada, ajuda a manter o metabolismo ósseo mais estável e reduzir as perdas estruturais.

Diagnóstico: como saber se você está com osteoporose?

O exame padrão para avaliar a densidade óssea se chama densitometria óssea por absorciometria de dupla energia de raio-X (DEXA). No entanto, em pessoas com lesão medular, é necessário cuidado ao interpretar os resultados — especialmente porque as áreas mais comumente testadas (lombar e quadril) nem sempre mostram a real extensão da perda óssea nas pernas.

Há quem defenda medições em torno do joelho ou fêmur distal como mais indicadas no contexto de neuroparalisia. Mas seja como for, a conversa com reabilitadores experientes pode direcionar o melhor exame e frequência.

Quer aprofundar esse papo? Acesse os estudos clínicos na seção Evidências do nosso site.

Não ignore o invisível

Uma das partes mais traiçoeiras da osteoporose pós-lesão é o silêncio. Ela não grita. Não late. Não aperta. Mas quando chega, pode mudar completamente a qualidade de vida de quem já enfrenta batalhas diárias.

Ignorar a saúde óssea é abrir espaço para um inimigo oculto, que não causa dor — até causar. E aí, tratar se torna mais difícil. Nossa proposta é simples: tratar enquanto ainda é tempo.

Conclusão: osso não tem culpa… mas também não tem pena

Se você tem lesão medular, ou cuida de alguém com essa condição, incluir a saúde óssea na pauta não é “algo extra”. É essencial. O osso reage ao uso — e também à falta dele. Mas há caminhos, técnicas, abordagens e experiências já acumuladas por quem vive isso todos os dias.

No Blog Além da Lesão, seguimos explorando essas nuances com curadoria, profundidade e crítica. Também discutimos os dados mais relevantes da literatura científica na seção Evidências.

Não subestime a imobilidade. Mas também, não superestime sua inevitabilidade. Cuidar do corpo exige ritmo, ciência e decisão. Vamos juntos nessa construção diária.

Tem dúvidas sobre sua rotina, quer discutir estratégias práticas ou ver o que outros estão testando ao redor do país? Participe das conversas no Instagram @mundolesaomedular e compartilhe sua vivência. Cada experiência conta.

Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.

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