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Complicações após lesão medular: o que saber

Complicações após lesão medular: o que saber

Ok. Você passou por uma lesão medular, sobreviveu ao impacto, começou o processo de reabilitação e… BAM! Quando acha que já entendeu as regras do jogo, aparece algo inesperado: febre constante, quedas bruscas de pressão ou até episódios de falta de ar. Seja bem-vindo ao universo das complicações secundárias da lesão na medula espinhal. Elas existem, são traiçoeiras, muitas vezes silenciosas, mas podem — e devem — ser encaradas de frente.

Se você é paciente, cuidador ou profissional da saúde, entender esses desdobramentos não é opcional. É uma necessidade estratégica. Assim como um celular novo que vem sem manual claro, o corpo com lesão medular exige leitura cuidadosa dos “bugs” que podem surgir. Então senta aí e vem comigo.

O que são, afinal, essas complicações secundárias?

Quando falamos em complicações secundárias da lesão medular, estamos nos referindo a efeitos colaterais indiretos da lesão. Ou seja, não é o trauma em si que causa esses problemas, mas sim desregulações que ocorrem porque partes do corpo deixaram de funcionar como antes. O sistema nervoso se reorganiza, e às vezes, bagunça tudo no caminho.

Por que isso acontece?

Simples: nossa medula espinhal é tipo um centro de controle. Quando a via de comunicação entre o cérebro e o resto do corpo se interrompe, várias funções entram em modo avião. Isso gera vulnerabilidades que, se não forem monitoradas, podem virar verdadeiras bombas-relógio.

O maior erro? Achar que fisioterapia e cadeira de rodas resolvem tudo. A reabilitação real exige um olhar constante para dentro — e para as armadilhas escondidas nos bastidores do corpo.

As complicações mais comuns (e perigosas)

Vamos direto ao ponto. Aqui estão as complicações secundárias mais recorrentes após uma lesão medular. Algumas são sutilmente incômodas, outras potencialmente fatais se não gerenciadas com precisão.

Infecções urinárias (ITU)

Campeã de audiência. A lesão medular afeta o controle da bexiga, que pode se esvaziar mal ou ser manipulada com sondas e cateterismos frequentes. Resultado? Porta aberta para bactérias.

  • Febre sem motivo aparente;
  • Urina turva, com cheiro forte;
  • Espasmos autônomos súbitos (às vezes o único sinal).

Prevenção e manejo são obsessivos aqui: rotina de cateterismo adequada, boa ingestão de líquidos, técnicas estéreis e vigilância constante de sintomas.

Hipotensão ortostática

Ficar em pé ou sentar e sentir tudo girar? Pode ser a tal da hipotensão ortostática. Acontece porque o corpo perdeu reflexos autonômicos que regulam a pressão arterial.

Se o sangue não sobe, o cérebro não funciona. E não, isso não é metáfora. É fisiologia pura.

O problema é crônico em tetraplégicos altos e pode causar quedas repentinas e perda de consciência. A boa notícia? Existe tratamento com meias elásticas, ajustes posturais e, se necessário, medicamentos.

Autonômica disreflexia (AD)

Essa é perigosa de verdade. AD é uma reação exagerada do seu sistema nervoso a estímulos abaixo do nível da lesão — como bexiga cheia, feridas ou obstipação intestinal. Resultado? Pressão arterial sobe violentamente e o risco de AVC entra em cena.

  • Dor de cabeça súbita e intensa;
  • Rubor facial, suores localizados;
  • Pressão acima de 150 mmHg? Red flag total.

Reconhecer a AD é um dever de sobrevivência. Saber cortá-la na raiz (removendo o estímulo, tratando infecções ou evacuando o intestino) pode salvar sua vida.

Problemas respiratórios

Com lesões cervicais, os músculos respiratórios perdem força. Isso compromete a tosse (que vira suspiro) e aumenta o risco de acúmulo de secreções nos pulmões.

Exemplo prático: uma gripe pode virar pneumonia em 2 dias sem o manejo adequado.

Fisioterapia respiratória regular, técnicas de tosse assistida e atenção com infecções virais são essenciais para manter o pulmão funcionando redondo.

Úlceras por pressão

Ambas silenciosas e traiçoeiras. Pressão constante em um mesmo ponto do corpo bloqueia a circulação e danifica a pele. Se não tratada, a ferida evolui rápido — e quando você vê, já está com exposição óssea e risco de infecção generalizada.

  • Troca de posição a cada 2 horas;
  • Inspeção diária da pele (espelho e lanterna, sempre);
  • Colchões e almofadas adequadas são investimento, não luxo.

As úlceras não matam logo de cara. Elas enrolam, minam energia e drenam recursos — físicos e emocionais. Evitar uma é infinitamente mais barato e menos doloroso do que tratar uma estágio 4.

Há saída. Mas exige vigilância constante

Agora que você conhece o mapa das complicações, entenda: isso aqui não é um “quem sabe, sabe”. É um “quem sabe, sobrevive com mais dignidade”.

A boa gestão da lesão medular não é passiva. Ela exige raciocínio clínico mesmo de quem não é médico. Cada sintoma novo deve acender uma luz amarela. A prática nos mostrou que:

Mais de 70% das intercorrências graves em pessoas com lesão medular vêm de pequenas negligências: excesso de tempo na mesma posição, bexiga mal drenada, intestino lotado.

Por isso, mais do que tratar depois, é hora de atuar antes. Protagonismo não é romantização — é sobrevivência com planejamento.

Para quem busca ir além do óbvio

Se você chegou até aqui, parabéns. Isso já diz muito sobre sua postura. Mas esse é só o começo da jornada. No Blog Além da Lesão temos textos aprofundados sobre cada uma dessas complicações. Para quem quer se aprofundar ainda mais, o caminho é entrar agora em:

Conclusão: olhos atentos salvam corpos inteiros

Uma lesão medular pode parecer um ponto final. Mas, na prática, ela é só o primeiro parágrafo de um texto longo — e surpreendentemente editável.

Complicações secundárias não escolhem se você está bem-intencionado ou não. Elas vêm. O que faz a diferença é o nível de consciência, preparo e ação antes do caos. Ter um plano. Conhecer o inimigo. Agir com estratégia e calma.

A reabilitação, por aqui, não termina na fisioterapia. Ela se aprofunda no autocuidado, na leitura smart dos sinais do corpo e, principalmente, na informação sólida. Sem “achismos”. Sem alarmismos. Com técnica e propósito.

Busque profissionais, monitore com critério, e acima de tudo: queira entender, não só sobreviver. Seu corpo agradece. Sua vida também.

Continue sua jornada com a gente. Conhecimento aqui não é luxo — é precisão estratégica.


Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.

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