Disreflexia Autonômica: Entenda o Fenômeno
Imagine estar deitado, completamente calmo, mas seu corpo dispara um alarme interno como se estivesse em guerra: pressão arterial sobe de forma abrupta, você transpira frio, sente o rosto quente, uma dor de cabeça lateja como sirene. Tudo isso porque… sua bexiga encheu.
Se parece exagero, bem-vindo ao mundo da disreflexia autonômica — um dos fenômenos mais perigosos e, infelizmente, menos conhecidos no universo da lesão medular. E aqui não tem espaço para adivinhações: quem convive com essa realidade precisa entender como ela funciona, o que a desencadeia e, principalmente, como agir rápido para não pagar um preço alto.
Não é drama. É fisiologia nivel hard.
Disreflexia autonômica não é rara — é subdiagnosticada, subreportada e subentendida. Isso precisa mudar.
O que é disreflexia autonômica, afinal?
Em termos técnicos (mas descomplicados), a disreflexia autonômica é uma reação exagerada e descontrolada do sistema nervoso autônomo a estímulos considerados irritantes, abaixo do nível da lesão medular — especialmente em pessoas com lesões acima de T6.
O sistema nervoso autônomo é aquele que cuida das funções automáticas do corpo: batimentos cardíacos, pressão, sudorese, digestão. Quando a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo é interrompida (por uma lesão medular), o corpo pode responder de maneira descoordenada. Um simples estímulo, como um intestino impactado ou uma bexiga cheia, vira uma bomba fisiológica.
- Pressão arterial sobe perigosamente;
- Frequência cardíaca pode cair (bradicardia);
- Cefaleia intensa e sudorese acima da lesão;
- Pele fria, palidez e rubor facial;
- Ansiedade e sensação iminente de catástrofe.
Esses sintomas não são elegantes. São urgentes.
Causas comuns: o que dispara a disreflexia
Existem gatilhos clássicos. E ignorá-los é brincar com fogo.
As causas mais frequentes estão relacionadas a:
- Estímulos vesicais: bexiga cheia, obstrução do cateter, infecção urinária, espasmo da bexiga.
- Problemas intestinais: intestino impactado, programa intestinal mal conduzido, manobras invasivas.
- Fatores dermatológicos: úlceras de pressão, unhas encravadas, roupas apertadas, lesões na pele.
- Estímulos sexuais: relações sexuais e até exames ginecológicos ou retais.
Vale o alerta: nem sempre o gatilho é óbvio. Às vezes, é aquele detalhe que passou batido — a ponta do cateter dobrando, uma sonda fora do lugar ou simplesmente a bexiga enchendo quando se esquece de fazer o cateterismo no tempo certo.
Não reconhecer os sinais de disreflexia pode custar caro — AVC, convulsões e até morte súbita. Não tem mistério: tem risco real.
Como agir diante de uma crise?
Essa parte é mais do que técnica. É urgente.
Primeiros passos práticos (e que precisam estar afiados):
- Sente a pessoa imediatamente (posição ortostática ajuda a reduzir pressão sanguínea).
- Solte roupas apertadas, meias de compressão ou qualquer faixa abdominal.
- Identifique o gatilho: verifique bexiga (cateterismo na hora, se necessário), intestino e pele.
- Se for imediata, administre medicação anti-hipertensiva prescrita previamente (como nifedipina…).
- Nunca deixe sozinho — monitore pressão e esteja pronto para chamar ajuda médica se os sintomas não cessarem.
Esse protocolo precisa ser conhecido pelos próprios lesados, mas também por cuidadores, familiares e equipes de emergência. Não dá para contar que o socorro vai adivinhar o que está acontecendo.
Inclusive, muitos plantonistas não reconhecem uma crise de disreflexia. Então leve suas informações, mantenha controle dos medicamentos e, se possível, ande com uma carta de emergência explicando o quadro clínico. Literalmente salva-vidas.
Vivência real: quando o corpo quer falar, mas ninguém entende
Nas primeiras vezes que tive episódios de disreflexia, confesso: achei que estava tendo um derrame. Meu rosto formigava, a cabeça explodia e o suor escorria mesmo no ar-condicionado. O médico da emergência mediu a pressão e disse: “Ué… mas você nem anda, como pode estar com 18 por 11?”.
Sim. Falta capacitação e sensibilização.
Hoje, sei exatamente quando ela começa — arde dentro das orelhas, uma pressão que sobe, e o corpo avisa. Mas não é todo mundo que sente assim ou reconhece os sinais de imediato.
Autoconhecimento é a diferença entre desespero e domínio. Na disreflexia, aprender a ouvir seu corpo é estratégia de sobrevivência.
Dentro dos nossos cursos e debates no @mundolesaomedular, esses relatos aparecem com frequência. Um intestino impactado que passou despercebido quase levou alguém a óbito. Um simples esquecimento no cateterismo provocou uma crise no meio do cinema. Esse tipo de “desatenção” não é culpa — é falta de repertório. E é por isso que estudar e prevenir é vital.
Tratamento e longo prazo: a importância da vigilância constante
Não existe cura para a disreflexia — existe gestão inteligente.
O pilar da prevenção envolve planejamento e rotina:
- Cateterismo com frequência e técnica corretos;
- Programa intestinal estruturado e regular;
- Prevenção de lesões de pele e desconfortos externos;
- Estratégias sexuais conscientes;
- Monitoramento da pressão arterial em situações críticas (como trocas de sonda, evacuações, exames invasivos).
Além disso, é fundamental que a equipe de reabilitação entenda (e aborde) o assunto com seriedade. Não como um anexo, mas como protocolo diário. O tema é discutido com profundidade na seção Evidências do nosso Repositório de Artigos. A investigação clínica e os estudos apontam para a importância de empoderar o paciente na identificação dos sinais e na tomada de decisão rápida.
Conclusão: viver com risco não é inevitável — desde que se conheça o jogo
Disreflexia autonômica não é um fantasma. É uma ameaça concreta, mas vencível. E o primeiro passo para neutralizá-la não está na farmácia — está no entendimento. Informação bem-absorvida, rotinas bem-executadas e equipe bem articulada mudam completamente o prognóstico.
Se você convive com lesão medular (ou cuida de alguém que convive), não deixe esse tema de lado. Estude. Treine. Debata. Demonstre. Essa é a verdadeira acessibilidade: quando o corpo fala, e todo mundo à volta sabe ouvir.
E você? Já sentiu seu corpo gritar em silêncio? Fale com sua equipe, revise seus protocolos, participe das conversas no nosso Instagram e aprofunde sua estratégia de reabilitação.
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Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.
