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Emprego Após Lesão Medular: Fatores e Intervenções

Emprego Após Lesão Medular

Os termos “trabalho” e “emprego” são usados de forma intercambiável na literatura e neste capítulo, abrangendo empregos remunerados e não remunerados, independentemente do status, tipo de indústria ou ocupação. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) da Organização Mundial da Saúde (OMS) define emprego como “engajar-se em todos os aspectos do trabalho, como ocupação, ofício, profissão ou outra forma de emprego, para pagamento ou onde o pagamento não é fornecido, como empregado, em tempo integral ou parcial, ou autônomo”. A relação entre emprego e saúde é profunda em nível internacional, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (Artigo 23) afirmando que todas as pessoas têm direito ao trabalho. A OMS promove vidas mais saudáveis, e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) busca garantir trabalho decente para todos, destacando o valor do trabalho e seu impacto na funcionalidade individual e na saúde da sociedade.

Desde o início da década de 1950, a importância de retornar ao trabalho após uma LM tem sido reconhecida. O emprego remunerado não só ajuda a alcançar a autossuficiência econômica, mas também é considerado uma fonte de crescimento pessoal, ajuste à deficiência, e está associado à integração social, satisfação com a vida e financeira, e melhor saúde.

Taxas de Emprego em Pessoas com LM: É desafiador obter números exatos de emprego em estudos publicados devido a variações nas características da amostra (idade, duração da lesão, experiência de trabalho pré-lesão) e diferenças na definição de emprego. Embora a taxa de emprego observada varie amplamente (2% a 80%), a cifra mais precisa desde a década de 1970 provavelmente está entre 30% e 50%. Essa taxa varia com a gravidade da lesão e disparidades regionais. Desde 2015, 18% das pessoas com LM estão empregadas um ano após a lesão, e a taxa aumenta para 31% após 30 ou mais anos pós-lesão.

Existe uma necessidade significativa de explicar por que a participação no emprego é tão menor na população com deficiência em comparação com aqueles sem deficiência, mesmo que uma proporção considerável de pessoas desempregadas com LM se considere capaz de trabalhar. Apesar das melhorias em tecnologia, robótica, controles ambientais, design universal, redução de preconceitos e oportunidades de adaptação de trabalho, as taxas de emprego para pessoas com LM mudaram muito pouco nos últimos 30-40 anos.

Complexidade do Retorno ao Trabalho: O retorno ao trabalho é um processo complexo, e a incapacidade para o trabalho resulta da interação de características pessoais e ambientais. Não é apropriado afirmar que a baixa taxa de emprego em pessoas com LM se deve apenas a características intrínsecas ou pessoais. Para aumentar a probabilidade de sucesso no retorno ao trabalho, as intervenções devem visar vários fatores, incluindo o treinamento profissional e outras intervenções ambientais.

Reabilitação Profissional: A reabilitação profissional é um domínio importante a ser explorado. É definida como “uma abordagem multiprofissional baseada em evidências, através de várias configurações e intervenções, e é fornecida a indivíduos em idade ativa com deficiências, limitações ou restrições relacionadas à saúde na função de trabalho, e cujo objetivo principal é otimizar a participação no trabalho”. Outro objetivo da reabilitação profissional é a participação precoce e sustentada no emprego. No entanto, manter o emprego é um desafio; por exemplo, um estudo na Austrália mostrou que, embora 61% das pessoas com LM estivessem empregadas em algum momento após a lesão, problemas para sustentar o emprego levaram a uma diminuição na taxa para 31%.

Fatores que Influenciam o Emprego (Modificáveis e Não Modificáveis): O capítulo visa identificar e avaliar a evidência de intervenções destinadas a promover o retorno ao trabalho pós-LM. A metodologia para esta revisão incluiu busca em bases de dados focadas em ciências sociais (Social Sciences Abstracts e Social Work Abstracts) e ampliação dos critérios de inclusão para estudos qualitativos relevantes.

1. Fatores Ambientais: Baseados na CIF, incluem produtos e tecnologia (dispositivos de assistência), ambiente natural e mudanças feitas pelo homem (localização geográfica), apoio e relacionamentos (apoio do empregador), atitudes (discriminação) e serviços, sistemas e políticas (cuidados de saúde).

Barreiras Ambientais (Evidência Nível 5):

    ◦ Incentivos financeiros negativos: Em certas regiões, ganhar acima de um limite pode levar à perda de benefícios sociais (como assistência odontológica, medicamentos prescritos ou acesso a equipamentos e suprimentos médicos financiados pelo governo), desencorajando o retorno ao trabalho. Ameaças à abolição ou redução de benefícios de seguro saúde com o aumento da renda do trabalho também podem ser um impedimento.

    ◦ Discriminação por deficiência: Percepções negativas ou ingênuas de empregadores sobre a produtividade de indivíduos com LM. Empresas tendem a oferecer menos entrevistas quando a lesão é revelada. Cerca de 80% dos canadenses concordam que pessoas com deficiência são menos propensas a serem contratadas, mesmo se igualmente qualificadas. Atitudes negativas de empregadores são vistas como uma barreira.

    ◦ Inacessibilidade física do local de trabalho.

Facilitadores Ambientais (Evidência Nível 5):

    ◦ Independência no transporte: Ser um motorista independente está positivamente associado ao retorno ao trabalho, devido à redução da dependência de opções de transporte público inflexíveis, inacessíveis ou não confiáveis.

    ◦ Habilidades tecnológicas: Pessoas com LM que possuem habilidades em informática tendem a retornar ao trabalho mais rapidamente e a ter maiores ganhos.

    ◦ Adaptações no trabalho: A maioria dos que retornam ao trabalho o fazem, em parte, devido a modificações no trabalho, como adaptações de tarefas e redução de horas de trabalho.

    ◦ Mentoria ou apoio de pares: Programas de mentoria podem proporcionar um ambiente facilitador, embora a relação direta com o emprego pós-LM não seja totalmente clara.

    ◦ Acesso a vários dispositivos de assistência.

    ◦ Apoio social (incluindo ser casado).

    ◦ Incentivos financeiros positivos (exceto quando recebendo benefícios de segurança social).

2. Fatores Pessoais: Algumas características pessoais não podem ser modificadas (ex: nível da lesão), enquanto outras, como nível de educação, estado de saúde e habilidades de trabalho, podem ser modificadas com intervenções apropriadas.

Fatores Pessoais Não Modificáveis (Evidência Nível 5):

    ◦ Demografia: Ser caucasiano favorece o emprego. O gênero masculino tem sido um forte preditor, mas estudos recentes não mostram diferença significativa.

    ◦ Relacionados ao tempo: Idade mais jovem no momento da lesão e maior duração da lesão (até 20 anos pós-lesão) são melhores preditores de emprego do que a idade isolada. A participação no trabalho pode diminuir com o aumento da idade após os 40 anos.

    ◦ Relacionados à lesão: Uma lesão menos grave aumenta a probabilidade de emprego (a gravidade da lesão influencia negativamente).

    ◦ Trabalho/Educação pré-lesão: Um nível de educação mais alto pré-lesão aumenta a probabilidade de emprego. Estar empregado no momento da lesão, retornar ao emprego pré-lesão ou ter um emprego de baixa intensidade física tendem a influenciar positivamente o emprego.

Fatores Pessoais Modificáveis (Evidência Nível 5):

    ◦ Educação/Treinamento pós-lesão: Continuidade da educação ou busca por treinamento após a LM é um fator chave que pode compensar outros fatores, como a gravidade da lesão. Um diploma profissional e trabalho não fisicamente exigente aumentam a probabilidade de emprego.

    ◦ Saúde: Ter menos condições de saúde secundárias (ex: dor, depressão, úlceras de pressão, infecções do trato urinário, problemas respiratórios) aumenta as oportunidades de emprego.

    ◦ Independência funcional: Um nível mais alto de independência, incluindo habilidades com cadeira de rodas, favorece o emprego.

    ◦ Questões psicológicas: Atributos como um locus de controle interno, valores e expectativas positivas em relação ao trabalho, incluindo a internalização de resultados positivos do trabalho, são propensos a favorecer o emprego.

    ◦ Participação: A participação em esportes organizados pode facilitar o emprego através da construção de mentorias/relacionamentos, socialização e autoconfiança. Reduzir barreiras ambientais pode aumentar a participação social e facilitar o status de emprego.

    ◦ Estado civil: Estar casado é um fator pessoal modificável que influencia positivamente as oportunidades de emprego.

Intervenções para Melhorar o Emprego: Há uma falta significativa de estudos de alta qualidade com foco em intervenções relacionadas ao trabalho e emprego após LM. A maioria dos relatórios são séries de casos ou estudos observacionais. Estratégias individualizadas bem-sucedidas abordaram necessidades de atividades diárias e mobilidade, acomodação no trabalho (incluindo apoio no local de trabalho) e preocupações dos empregadores.

Intervenções com Evidências de Sucesso:

    ◦ Emprego Apoiado (Supported Employment – SE):

        ▪ Possui a evidência mais forte (Nível 1) de que pode melhorar os resultados de emprego entre indivíduos com LM.

        ▪ Um ensaio randomizado (Nível 2) descobriu que o SE era 2,5 vezes mais eficaz (e até 11,4 vezes mais em alguns locais) em retornar veteranos ao trabalho do que o tratamento usual (TAU).

        ▪ Aumentou significativamente as horas trabalhadas por semana e diminuiu as horas perdidas de trabalho. No entanto, não foi custo-efetivo após um ano de acompanhamento (Nível 4).

    ◦ Cães de Serviço:

        ▪ Evidência Nível 1 e 1b sugere que cães de serviço melhoram a integração e participação na escola e no emprego e diminuem as horas de assistência paga após o primeiro ano. Também melhoram o status psicossocial, incluindo autoestima e locus de controle interno.

    ◦ Aconselhamento e Reabilitação Profissional:

        ▪ O acesso ao aconselhamento profissional, treinamento educacional ou profissional é uma questão chave.

        ▪ Aconselhamento profissional in loco durante a reabilitação hospitalar pode aumentar as taxas de emprego (Níveis 5 e 4).

        ▪ Receber treinamento profissional aumenta a probabilidade de emprego (Nível 5).

        ▪ A reabilitação profissional pode beneficiar o processo de colocação e reintegração no trabalho.

        ▪ O apoio contínuo ao empregado e ao empregador antes e depois da colocação profissional pode levar a um retorno bem-sucedido ao trabalho e à retenção do emprego.

    ◦ Serviços de Colocação de Emprego: Podem ajudar indivíduos com LM a encontrar emprego (Nível 4).

    ◦ Ferramentas de Planejamento Centrado na Pessoa: Facilitam o emprego (Nível 4).

    ◦ Programas de Mentoria: Um estudo prospectivo (evidência incerta) mostrou que participantes que concluíram um programa de mentoria melhoraram sua funcionalidade, independência e participação, o que pode ter contribuído para resultados favoráveis de retorno ao trabalho/escola, mas a ligação direta ao emprego não era clara.

    ◦ Construções Psicológicas: Uma meta-análise (Nível 1) mostrou que experiências afetivas, qualidade de vida e satisfação com a vida são construções psicologicamente importantes com efeitos moderados a grandes no emprego após LM.

    ◦ Informações Estruturadas: Fornecer informações estruturadas sobre LM e emprego por um período de 4 semanas pode ajudar a estabelecer interesses vocacionais entre pessoas com LM em busca de emprego (Nível 4).

    ◦ Internalização de Resultados Positivos de Emprego: A propensão de um indivíduo a internalizar resultados positivos de emprego em relação às suas capacidades pode contribuir para o retorno ao trabalho (Nível 5).

Intervenções com Evidências Limitadas ou Ineficazes:

    ◦ Programas de gerenciamento de casos aumentam o retorno ao treinamento educacional, mas não ao trabalho (Nível 4).

    ◦ Um estudo avaliando uma intervenção de telerreabilitação (não focada em emprego) não mostrou um retorno mais rápido ao trabalho em comparação com os cuidados usuais.

    ◦ Serviços de apoio financiados publicamente (ex: ajuda com atividades diárias) não mostraram efeito na participação no mercado de trabalho em comparação com pacotes de apoio de seguros privados.

Revisões Sistemáticas: Três revisões sistemáticas e uma meta-análise foram encontradas.

• Uma revisão de Trenaman et al. (2014) destacou o emprego apoiado e o uso de cães de serviço como as intervenções com as evidências mais fortes para melhorar os resultados de emprego. Ela observou que a maioria das pesquisas era observacional e que as conclusões dos programas de reabilitação profissional podem ser confundidas pela auto-seleção dos indivíduos.

• Outra revisão dos mesmos autores (Trenaman et al. 2015) identificou 20 fatores modificáveis e 12 não modificáveis associados ao emprego após LM. Fatores modificáveis consistentemente associados incluíam educação, reabilitação profissional, independência funcional, apoio social e incentivos financeiros negativos.

Em geral, embora a qualidade da pesquisa em (re)treinamento profissional seja escassa e as conclusões se baseiem principalmente em estudos observacionais ou de caso, há evidências que apoiam o uso de intervenções para melhorar o emprego pós-LM.

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