Dor neuropática em lesão medular: entenda e trate
Quem vive com lesão medular sabe: a dor não segue regras simples. Muitas vezes, ela não nasce de uma pancada, não responde a um analgésico comum e não some com repouso. Estamos falando de uma dor que mora nos nervos — literalmente. Uma dor crônica e neuropática que parece zumbir sob a pele ou explodir em disparos elétricos. E o pior? Muita gente ainda escuta que “é normal” ou que “vai passar”.
Mas essa dor silenciosa tem nome, explicações e, sim, caminhos de controle. Não é sobre acabar com ela em definitivo (ainda), mas sobre dominar a fera e recuperar o comando do próprio corpo. Neste artigo, a gente não vende milagre – entrega conhecimento de quem vive a realidade da lesão todos os dias.
“Quem sente dor neuropática não precisa de pena — precisa de estratégia, acompanhamento especializado e informação real.”
O que é a dor neuropática na lesão medular?
Vamos direto ao ponto. Dor neuropática é um tipo de dor originada por uma lesão no sistema nervoso. Em pessoas com lesão medular, ela é causada por danos diretos à medula espinhal ou raízes nervosas. E não, isso não tem nada a ver com sensações musculares ou ósseas. Estamos falando de falhas no sistema elétrico do corpo, com sinais distorcidos que resultam em dor sem “motivo físico aparente”.
Características típicas dessa dor
- Queimação contínua
- Choques, pontadas ou formigamentos intensos
- Hipersensibilidade ao toque ou ao frio
- Áreas com sensibilidade alterada — dói ao tocar ou, ao contrário, dói porque não sente nada
Essa dor pode aparecer acima, abaixo ou até no nível da lesão. Ela pode surgir semanas, meses — até anos — após o trauma na coluna. E viver com dor constante muda tudo: humor, sono, apetite, sociabilidade e, claro, funcionalidade.
Como a dor crônica se instala após a lesão medular?
Imagine uma fiação queimada. Mesmo cortada, ela ainda solta faíscas erráticas. Assim funciona o sistema nervoso após uma lesão medular. As vias nervosas danificadas podem continuar ativando circuitos de dor, mesmo sem estímulos reais. Essa desorganização — conhecida como sensibilização central — transforma estímulos neutros em experiências dolorosas.
Do ponto de vista técnico, existem dois tipos principais:
- Dor neuropática central: proveniente diretamente da medula ou do cérebro. Muito comum em lesões completas ou incompletas.
- Dor radicular/periférica: ligada às raízes nervosas próximas à lesão. Pode ter características de dor mecânica e de queimação combinadas.
E não estamos falando de dor passageira. Essa é uma dor persistente, complexa e de difícil tratamento. Ela exige abordagem interdisciplinar e escuta qualificada — algo raro no sistema tradicional de saúde.
Como lidar com a dor neuropática?
Mais do que “suportar”, é preciso estratégia ativa de enfrentamento. O tratamento da dor neuropática exige tentativa, erro, ajuste fino e, principalmente, acompanhamento constante. O que ajuda um não ajuda outro. Mas existem pilares consensuais:
Terapias medicamentosas com embasamento
- Antidepressivos tricíclicos (ex: amitriptilina): usados em baixas doses para modular os circuitos de dor.
- Anticonvulsivantes (ex: pregabalina, gabapentina): ajudam a reduzir a atividade nervosa anormal.
- Opioides (com cautela): podem ser indicados em casos severos e refratários, sob rígido controle médico.
- Toxina botulínica e ketamina: considerados em situações experimentais ou tratamentos avançados.
Importante: a medicação por si só rara vez resolve tudo. É parte da jornada – não destino final.
Recursos físicos e reabilitacionais
- Estimulação elétrica transcutânea (TENS): funciona para alguns tipos de dor de superfície.
- Fisioterapia motora e sensorial: reorganiza caminhos neuronais e reduz a hiperexcitabilidade.
- Mobilização ativa e passiva: manter o corpo em movimento é essencial para estabilidade sensorial.
Reabilitação bem feita não trata só músculo — ela ensina o cérebro a interpretar os sinais de forma diferente.
Abordagens complementares (e bem-vindas)
- Terapia cognitivo-comportamental: ajuda a lidar com os impactos emocionais da dor contínua.
- Meditação guiada e mindfulness: comprovadamente eficazes na regulação da experiência dolorosa.
- Neurofeedback e realidade virtual: ainda em testes, mas promissores em reeducação neural.
O que a ciência diz: evidências e caminhos abertos
No nosso acervo de Evidências reunimos estudos que sustentam essas abordagens. Um destaque é a revisão sistemática sobre o papel da pregabalina em dor central pós-lesão: mostrou redução significativa da dor em até 40% dos casos após 8 semanas. Não é perfeito — mas é funcional para muitos.
Outro foco crescente é a neuromodulação: implantes neurais, estimulação epidural e técnicas como rTMS que tentam realinhar os circuitos cerebrais. Ainda são inacessíveis para a maioria, mas apontam para um futuro onde a dor pode ser modulada com mais precisão.
Vivência real: quando a dor engole o cotidiano
Posso dizer por experiência: conviver com dor neuropática é como ter uma visita indesejada que nunca vai embora. Ela troca de rosto, muda de lugar, grita diferente a cada dia. Às vezes, cala fundo — como quando dói sem sinal externo algum. Nisso, eu aprendi que o primeiro passo é validar a dor (sim, ela é real) e o segundo é assumir o controle do plano terapêutico.
Você não é fraco, exagerado ou dramático. Você é uma máquina neurológica que sofreu dano — e isso desencadeia respostas cronicamente anormais. Mas você pode afinar essa orquestra.
Conclusão: dor não tratada é dor que rouba energia vital
A lesão medular já impõe desafios suficientes. Viver com dor crônica ou neuropática sem assistência adequada é injusto. Felizmente, há cada vez mais caminhos possíveis — alguns simples, outros avançados — para construir uma nova relação com o próprio corpo.
Não aceite explicações rasas. Mas também não se perca em promessas milagrosas. Busque avaliadores experientes em dor neuropática. Discuta todas as opções. Teste, reavalie, registre. E, sempre que possível, caminhe junto com outras pessoas que conhecem essa estrada — inclusive por aqui, no Blog Além da Lesão Medular.
Quer ir além?
- Explore outros conteúdos técnicos e históricos no nosso Repositório.
- Siga o debate real, sem filtros, no @mundolesaomedular.
- Participe de cursos com abordagem prática acessando nossa plataforma de formação.
Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.
