No momento, você está visualizando Impacto da Lesão Medular na Circulação

Impacto da Lesão Medular na Circulação

Impacto da Lesão Medular na Circulação: pressão arterial fora de controle?

Imagine acordar com a sensação de que o corpo não responde como antes. Além da perda de movimento ou sensibilidade, algo estranho acontece: tontura ao sentar, cabeça pesada, calafrios… e, de repente, a pressão arterial parece brincar de montanha-russa.

Pouco se fala sobre isso, mas a lesão na medula espinhal não afeta apenas músculos e sensações. Ela mexe, e muito, com o coração, os vasos sanguíneos e todo o sistema nervoso autônomo. Sim, a pressão arterial vira uma peça-chave nesse jogo, às vezes como vilã e outras como vítima.

Se você é um profissional da saúde, vive com lesão medular ou acompanha alguém nessa jornada, entender o que acontece com a circulação deixa de ser um luxo – é uma necessidade.

“Controlar a pressão depois de uma lesão medular é como tentar domar uma fera sem manual: tudo muda, do comando até a resposta. Saber o porquê faz toda a diferença.”

O que a medula tem a ver com pressão arterial?

Pra começo de conversa: o sistema nervoso autônomo (SNA) é o maestro que regula funções involuntárias do corpo. Inclui respiração, temperatura… e claro, o tônus dos vasos sanguíneos – que determina nossa pressão arterial.

Só que esse maestro passa boa parte da batuta pela medula espinhal, mais especificamente pela porção torácica e lombar. Quando há uma lesão medular aguda, especialmente acima do nível T6, esse comando é brutalmente interrompido.

O que acontece então?

  • Os vasos podem perder tônus – ou seja, não se contraem mais como deveriam.
  • A frequência cardíaca pode cair (bradicardia), já que o coração também depende de controle neural.
  • A redistribuição do sangue se desregula.

O resultado? Um quadro chamado de choque neurogênico nos estágios iniciais e, a longo prazo, uma montanha-russa de hipotensão crônica com episódios súbitos de disreflexia autonômica.

Hipotensão ortostática: queda livre toda vez que senta

Sabe aquela sensação de tontura ao sentar ou se levantar rápido? Pois é, quem tem lesão cervical ou torácica alta frequentemente sente isso o tempo todo.

O nome técnico é hipotensão ortostática. A explicação é simples (mas os sintomas nem tanto):

  • Sem o comando nervoso adequado, os vasos não se contraem ao mudar de postura.
  • O sangue fica “preso” nos membros inferiores.
  • O cérebro recebe menos sangue e… voilà: tontura, fraqueza e até desmaio.

Como lidar com isso?

  1. Meias elásticas de compressão graduada ajudam a conter o sangue nas pernas.
  2. Cintas abdominais também aumentam o retorno venoso.
  3. Levantar devagar, em etapas. Primeiro eleva o dorso, depois as pernas.
  4. Hidratação constante e consumo equilibrado de sal (somente com orientação médica).
  5. Uso de medicamentos específicos, como aqueles que elevam a pressão, pode ser necessário.

No entanto, o desequilíbrio nem sempre é pra menos…

Disreflexia autonômica: quando o corpo reage demais

Esse é o outro extremo. Em pessoas com lesões acima de T6, estímulos abaixo do nível da lesão (como bexiga cheia, constipação, fricção, feridas de pressão) podem disparar uma tempestade autonômica — aumentando perigosamente a pressão arterial.

É como se o corpo sentisse algo errado, quisesse reagir, mas não conseguisse modular a resposta. Resultado? Pressão sobe rápido, podendo ultrapassar 200 mmHg em minutos.

Sinais clássicos da disreflexia:

  • Dor de cabeça pulsante
  • Sudorese acima do nível da lesão
  • Rubor facial
  • Pilificação arrepiada
  • Visão turva, ansiedade

“Se você tem lesão alta e sente dor de cabeça súbita, vá atrás da causa como um detetive: avaliar bexiga, intestino e até a roupa apertada pode salvar sua vida.”

A seção de Evidências do Além da Lesão traz estudos, inclusive revisões sistemáticas, que apontam a necessidade urgente de educação clínica sobre esse fenômeno. A disreflexia mata. E é subdiagnosticada.

Estratégias de manejo a longo prazo

Depois da fase aguda da lesão, estabilizar a circulação é um desafio contínuo. A boa notícia? Com vigilância, treino e protocolos bem ajustados, muita coisa melhora.

Algumas estratégias comprovadas:

  1. Monitoramento diário (ou até contínuo) da PA, usando dispositivos automatizados
  2. Registro de padrões de PA ao longo do dia, pós-cateterismo, após evacuação e ao deitar
  3. Evitar estímulos conhecidos de disreflexia, como bexiga cheia e constipação
  4. Treinamento cardiovascular adaptado – incluindo FES (estimulação elétrica funcional)
  5. Suplementação alimentar e farmacológica com supervisão – Midodrina, Fludrocortisona, entre outros

E não se engane: mesmo anos após a lesão, o corpo pode mudar a forma como reage. A atenção à dinâmica da pressão arterial precisa fazer parte da rotina, como escovar os dentes.

Diagnóstico profissional é obrigatório

Este post não substitui — nem pretende — aconselhamento clínico. Pressão baixa, alta ou instável pode vir de causas além da lesão medular. Cardíacos, renais e hormonais são só alguns exemplos.

O foco aqui é alertar: se você vive com lesão medular, sua circulação já não joga conforme o manual. Adotar padrão de monitoramento e vulnerabilidades é parte essencial do plano de reabilitação.

“Reabilitar não é só andar ou mexer os braços. É garantir que o coração, o cérebro e os vasos joguem junto. Todos os dias.”

Pra onde seguir depois desse texto?

Se você ficou com a sensação de que tem mais coisa por trás dessas alterações, acertou. A lesão medular afeta múltiplos sistemas — e a pressão arterial pode ser o espelho do que está mal regulado.

Se quer se aprofundar em estratégias reais baseadas em ciência, acesse a nossa seção de Evidências. Lá reunimos artigos, diretrizes e discussões críticas que ajudam a montar o quebra-cabeça cardiovascular da lesão espinhal.

Além disso, participe das conversas que acontecem quase diariamente no Instagram @mundolesaomedular. Compartilhamos desafios, aprendizagens e até memes (porque se não for com leveza, não funciona).


Resumo rápido pra guardar na cabeça:

  • Lesões acima de T6 impactam fortemente o controle da pressão arterial.
  • Você pode oscilar entre hipotensão ortostática e disreflexia autonômica.
  • Adaptar a rotina e seguir protocolos não é frescura. É sobrevivência.
  • Trabalhe com uma equipe que entenda essa complexidade.

E se quiser aprender além do básico, explore os recursos do Blog do Além da Lesão ou participe de cursos voltados à reabilitação cardiovascular em lesão medular.

Se você luta com pressão desregulada e sente que ninguém leva isso a sério, saiba: não está sozinho.

Assine o blog clicando aqui para receber conteúdos como este direto no seu e-mail. Informação que salva, sem rodeios.


Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.

Deixe um comentário