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Massagem profunda é útil para lesão na medula?

Massagem profunda é útil para lesão na medula?

Se você tem uma lesão na medula espinhal ou cuida de alguém nessa condição, provavelmente já ouviu falar em “massagem de tecido profundo”. Parece promissor, certo? Tocar os músculos, aliviar tensões, melhorar a função. Mas vamos tirar as luvas aqui: isso pode ajudar? Ou pode complicar ainda mais?

Como tetraplégico há anos, te digo: já testei muita coisa — e massagear é uma arte que beira a ciência. Especialmente quando seu corpo responde diferente, seus nervos estão bagunçados e a sensibilidade não segue o script.

Neste artigo, vamos falar sério. Sem promessas mirabolantes, sem baboseira de spa zen. Vamos entender o que massagens de tecido profundo realmente fazem, para quem servem, quem deve passar longe e, principalmente, o que a ciência tem a dizer sobre isso em pessoas com lesão medular.

Entendendo a massagem de tecido profundo

Mas afinal, o que significa “tecido profundo”?

É fácil confundir esse tipo de massagem com uma massagem comum de relaxamento. Mas elas são bem diferentes.

Massagens de tecido profundo atuam nas camadas musculares mais internas, na fáscia, nos tendões e, eventualmente, nos pontos de gatilho miofasciais.

O foco aqui é desfazer aderências, soltar tensões crônicas e, às vezes, remodelar tecidos com mobilidade reduzida. São movimentos lentos, específicos e com pressão firme. Geralmente requer um terapeuta com técnica afiada.

  • Não é um carinho — é estímulo pesado.
  • Às vezes dói (mesmo com sensibilidade alterada).
  • É usada para tratar lesões de movimento repetitivo, fibroses, contraturas e dores musculares crônicas.

Agora, a pergunta: funciona para quem tem lesão medular? Vamos por partes.

Benefícios em cenários específicos — com ressalvas

Pessoas com lesão medular ainda vivem em um corpo que se move, mesmo que de forma diferente. Existem rigidezes, tensões, espasticidades, contraturas… e o sistema musculoesquelético sofre pela imobilidade prolongada.

Nesse cenário, a massagem profunda pode sim trazer benefícios pontuais, desde que seja aplicada com:

  • Conhecimento científico do que está sendo feito;
  • Identificação precisa da necessidade (espasmos? contratura local? tensão pós-fisioterapia?);
  • Monitoramento frequente de respostas corporais sensoriais, antes e depois da sessão.

Impactos positivos relatados em estudos e relatos clínicos incluem:

  1. Melhora da mobilidade muscular, especialmente em áreas com rigidez pósural, como ombros, pescoço e região lombar.
  2. Redução da dor referida (em pessoas com alguma sensibilidade residual).
  3. Estimulação da circulação, favorecendo a oxigenação de tecidos em áreas menos mobilizadas.
  4. Potencial auxílio na prevenção de contraturas (em conjunto com alongamentos e mobilizações).

Um estudo publicado na Journal of Spinal Cord Medicine identificou que massagens com descarga de pressão dirigida promoveram relaxamento muscular e sensação de bem-estar subjetivo em pacientes com lesão incompleta e dor crônica associada a espasticidade leve.

Mas, antes que você agende uma sessão às pressas… calma.

Existem riscos sérios — e não são raros

É aqui onde o jogo muda. Para pessoas com lesão medular, especialmente com sensibilidade comprometida, terapias manuais mal conduzidas podem causar mais dano do que cura.

Lesões de pele, hematomas profundos, desequilíbrios autonômicos e até desequilíbrio na pressão arterial já foram associados a massagens aplicadas sem critério em pacientes com LME.

Riscos principais associados ao uso da massagem de tecido profundo incluem:

  • Pressão excessiva em áreas insensíveis, gerando lesão incapaz de ser identificada a tempo;
  • Desencadeamento de disreflexia autonômica em pessoas com lesões acima de T6 — que pode ser grave;
  • Erros na leitura de sinais musculares — confundindo espasmo com rigidez pósural, o que leva à manipulação errada;
  • Falha na individualização das técnicas, quando o terapeuta não entende as peculiaridades do corpo com lesão.

O que deve ser considerado antes da massagem?

Antes de qualquer terapia manual, algumas perguntas precisam ser muito bem respondidas:

  • Qual é o nível da lesão e o grau de sensibilidade preservada?
  • Existe alguma suspeita de lesão de pele ou risco de úlcera?
  • Há histórico de dor neuropática ou espasticidade intensa?
  • A sessão será aplicada por um profissional que compreende o sistema nervoso autônomo disfuncional?

Se a resposta não for convincente para cada uma dessas perguntas… evite.

Recomendações práticas para uso seguro

Se, mesmo após os cuidados, essa abordagem for levada adiante como estratégia terapêutica, recomendo algumas boas práticas:

  1. Faça uma avaliação prévia detalhada com fisioterapeuta neurológico.
  2. Prefira profissionais especializados em reabilitação neurológica ou com experiência em lesão medular.
  3. Inicie com sessões localizadas, de curta duração e com registros imediatos sobre as respostas (pressão arterial, desconforto, espasticidade etc).
  4. Comunique qualquer alteração após a sessão — mesmo que você ache irrelevante.

Em muitos casos, outras abordagens menos intensas, como mobilizações passivas, liberação miofascial leve ou compressão isquêmica guiada, podem ser melhores alternativas.

Mas é tudo questão de estudo e estratégia

Massagem profunda não pode ser vista como panaceia, mas como ferramenta. E ferramenta é útil ou perigosa conforme quem usa e como usa.

No universo da lesão medular, onde tudo é mais sensível, estratégico e específico, vale o cuidado extra.

Quer entender técnicas mais seguras com base científica? Na seção Evidências do nosso blog, você encontra artigos detalhados, com estudo por estudo, sobre práticas eficazes para dor, espasticidade, reabilitação física intensa e mais.

“Cuidar de um corpo neurológico exige mais do que boa intenção; exige precisão.”

Conclusão: massagear sim, mas com método

Massagens de tecido profundo podem ter papel importante em certos contextos da lesão medular. Mas é preciso cautela. A ausência de dor não significa segurança. A tensão muscular não é sempre tratável com pressão.

Se você vai explorar essa técnica, que seja de forma monitorada, gradual e consciente. É isso que diferencia um cuidado terapêutico de um risco desnecessário.

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Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.

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