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Prevenção de Úlceras após Lesão Medular

Prevenção de Úlceras após Lesão Medular: o que realmente funciona?

Se tem uma coisa que aterroriza quem vive com lesão medular — do recém-lesado ao profissional mais experiente na reabilitação — é a úlceras de pressão. Basta uma pequena negligência, uma tarde quente, um travesseiro mal posicionado… e pronto: a pele abre, a fisioterapia é interrompida, os riscos aumentam.

Mas vamos deixar os catastrofismos de lado. O ponto aqui não é o medo, é o controle. Conhecer como essas lesões se formam, por que elas insistem em aparecer e, principalmente, saber como evitá-las, é o tipo de aprendizado que salva – literalmente – saúde, energia, tempo e liberdade.

Se você cuida de alguém com lesão medular — ou se você é esse alguém — essas próximas linhas foram escritas olhando direto nos seus olhos.

Entendendo as úlceras de pressão: quando o tempo contra a pele vira inimigo

Úlcera de pressão (também chamada de escara ou lesão por pressão) é basicamente o resultado de um bloqueio prolongado no fluxo sanguíneo para uma área do corpo. E na prática, isso significa: ficar na mesma posição por muito tempo + pressão + umidade + fricção = pele lesionada.

Quem tem lesão medular vive um combo perigoso:

  • Ausência de sensibilidade → não sente o incômodo da pressão.
  • Mobilidade reduzida → depende de terceiros (ou muita técnica) para se reposicionar.
  • Espasticidade e deformidades → criam áreas extras de atrito e pressão focalizada.

As áreas mais afetadas? Sacro, calcanhares, ísquios, trocanteres e região occipital. Lugares onde o osso encosta diretamente na pele, sem muito “almofadamento” natural.

Previne-se mais com estratégia do que com sorte. Úlcera não é azar, é descuido acumulado.

Mas então… o que funciona de verdade para evitar?

1. Alívio de pressão: a regra de ouro que todo mundo conhece (mas nem sempre faz)

Esse é o básico, mas vale repetir: quem não muda de posição, lesiona.

  • Manobras de alívio: a cada 30 minutos quando sentado e a cada 2 horas em repouso na cama.
  • Inclinações e rotações: lateralizar o tronco, inclinar cadeira de rodas, ajustar apoios. Tudo conta.
  • Manutenção de bons apoios posturais: travesseiros, coxins, colchão casca de ovo, sistema ROHO… vamos falar disso agora.

2. Uso inteligente de interfaces de suporte (e não só “o melhor colchão”)

Não existe colchão milagroso, mas boas escolhas fazem diferença:

  • Colchões de redistribuição de pressão: do tipo viscoelástico, casca de ovo, infláveis com variação de pressão.
  • Almofadas para cadeira de rodas: gel, ar, espuma de alta densidade. O ideal é personalizar. Testar. Ajustar.

E atenção: o melhor sistema do mundo vai falhar se não for bem posicionado. Isso inclui:

  • Inclinação do assento
  • Altura adequada do encosto
  • Postura estabilizada do tronco e da pelve

3. Inspeção diária da pele: hábito pequeno, impacto gigante

O corpo dá sinais. Sempre dá. E quando a sensibilidade está ausente, o olhar precisa ser substituto do tato. Olhe, toque, compare.

  • Vermelhidão persistente?
  • Região quente, úmida, pegajosa?
  • Pequena descamação ou mudança de textura?

Isso é alerta vermelho.

Úlcera de pressão começa invisível. Geralmente, quando a pessoa percebe, o processo já está em fase dois ou três.

4. Higiene e hidratação da pele: nem muito, nem pouco. O necessário.

O mito da assepsia exagerada ainda destrói muita pele por aí. Lavar demais, secar errado, usar sabonete de pH agressivo, nada disso ajuda. O equilíbrio é o segredo.

  • Evite excesso de umidade: urina, suor acumulado, fraldas mal trocadas.
  • Hidrate diariamente: preferencialmente com produtos específicos para pele seca ou de uso hospitalar.
  • Nada de talco ou cremes perfumados “genéricos”: eles causam dermatite e abafam a pele.

5. Nutrição: a pele começa pelo que você come (ou deixa de comer)

É simples: pele frágil = mais risco de romper. Pele forte = mais resistência. E isso vem da nutrição.

  • Proteína suficiente: fundamental para renovação celular.
  • Micronutrientes como zinco, vitamina C e A: têm papel direto na composição da pele.
  • Ingestão correta de líquidos: resistência da pele depende também de hidratação sistêmica, não só tópica.

6. Tecnologias de monitoramento

No mundo real, a rotina é puxada e ninguém consegue checar tudo o tempo todo. A boa notícia é que novas ferramentas estão surgindo:

  • Sensores de pressão para cadeiras de rodas
  • Apps que lembram trocas de posição
  • Mapeamento térmico da pele

Reabilitação bem feita não é só mexer o corpo – é preservar o corpo. E a pele é a primeira fronteira dessa batalha.

O que dizem as evidências? (spoiler: conhecimento salva pele)

Segundo os estudos compilados na seção Evidências do Além da Lesão Medular, as formas mais eficazes de prevenção combinam:

  1. Educação do paciente e do cuidador
  2. Protocolos de alívio de pressão
  3. Uso de superfícies redistributivas testadas
  4. Monitoramento nutricional e cutâneo regular

Ou seja: não é uma medida ou outra. É um esquema completo. Um plano diário, adaptativo e consciente.

Conclusão: cansativo? Com certeza. Mas mais cansativo ainda é tratar uma úlcera aberta.

Prevenir úlceras em pessoas com lesão medular não é luxo. Não é exagero. É gestão inteligente da vida.

Sim, existe cansaço. Sim, é exaustivo – tanto para quem vive quanto para quem cuida. Mas cada atitude preventiva representa dias a menos no hospital. Sem curativos. Sem antibióticos. Sem feridas que sangram mais que a pele: sangram a liberdade.

Não negligencie a pele hoje para não precisar correr contra o tempo amanhã.

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Autor: Orlei Barbosa — Engenheiro e Auditor, estudioso do tema, tetraplégico desde 2017, compartilhando experiência empírica, realista e técnica.

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